Sobre Moluscos, Conchas e Belezas

Desde que o objetivo da educação é permitir que vivamos melhor, nossas escolas deveriam tomar a natureza como mestra

Voltamos ao mundo dos moluscos, que fez Piaget pensar sobre os homens… Deles a primeira coisa que vi foram as conchas. Eu vi, simplesmente, sem nada saber sobre suas origens. Ignorava que existissem moluscos. Não sabia que elas, as conchas, tinham sido feitas para ser casas daqueles animais de corpo mole que, sem elas, seriam devorados pelos predadores. Meus olhos apenas viram. Viram e se espantaram.

O espanto -os gregos sabiam que é no espanto que o pensamento começa. O espanto vem quando um objeto se coloca diante de nós como um enigma a ser decifrado: “Decifra-me ou te devoro!”. Conchas são objetos espantosos.

Foi um espanto estético. Foi a beleza que exigiu que eu as decifrasse. Conchas são objetos assombrosos, construídos segundo rigorosas relações matemáticas. Os moluscos eram também artistas, arquitetos. Suas casas tinham de ser belas. Será que a natureza tem uma alma de artista? Coisa estranha essa, com certeza alucinação de poeta, imaginar que a natureza seja a casa de um artista!

Não para Bachelard, que não se envergonhava em falar sobre “imaginação da matéria”. Haverá uma analogia entre a natureza e o espírito humano? Serão os homens apenas a natureza tomando consciência de si? Antes que a “Pietá” existisse como escultura, existiu como realidade virtual na alma de Michelângelo. Antes que as conchas existissem como objetos assombrosos, elas existiam como realidades virtuais na “alma” dos moluscos…

Pensei que a vida não produz apenas objetos úteis, ferramentas adequadas à sobrevivência. A vida não deseja apenas sobreviver, ela não se satisfaz com a utilidade. Ela constrói os seus objetos segundo as normas da beleza. A vida deseja alegria. Assim acontece conosco: precisamos sobreviver e, para isso, cultivamos repolhos, nabos e batatas e estabelecemos a ciência do cultivo de repolhos, nabos e batatas. Esse é um dos sentidos da ciência: receitas para construir ferramentas para a sobrevivência.

Mas, por razões que se encontram além das razões científicas, talvez por obra do artista invisível que mora em nós, gastamos nosso tempo e nossas forças na produção de coisas inúteis, tais como violetas, orquídeas e rosas, coisas que não servem para nada e só dão trabalho… Nosso corpo não se alimenta só de pão. Ele tem fome de beleza. Creio que Jesus Cristo não se importaria e até mesmo sorriria se eu fizesse uma paráfrase da sua resposta ao diabo, que o tentava com a solução prática: “Não só de repolhos, nabos e batatas viverá o homem, mas também de violetas, orquídeas e rosas…”.

Ume menina perguntou a Mário Quintana se era verdade que os machados públicos iriam cortar um maravilhoso pé de figueira que havia numa praça. Isso o levou de volta aos seus tempos de menino. No quintal de sua casa havia uma paineira enorme, que, quando florescia, era uma glória. Até que um dia foi posta abaixo simplesmente “porque prejudicava o desenvolvimento das árvores frutíferas. Ora, as árvores frutíferas! Bem sabes, meninazinha, que os nossos olhos também precisam de alimento…”.

Penso que, desde que o objetivo da educação é permitir que vivamos melhor, nossas escolas deveriam tomar a natureza como sua mestra. Assim, já que tanto falam em Piaget, imaginei que poderiam adotar as conchas como símbolos, afinal de contas, foi no estudo dos moluscos que o seu pensamento sobre educação se iniciou.

E quando indagados por pais e alunos sobre as razões de serem as conchas os símbolos da escola, os professores teriam uma ocasião para lhes dar a primeira aula de filosofia da educação: O objetivo da educação é ensinar as novas gerações a construir casas. É preciso que as casas sejam sólidas, por causa da sobrevivência. Para isso as escolas ensinam a ciência. Mas não basta que nossas casas sejam sólidas, é preciso que sejam belas. A vida deseja alegria. Para isso as escolas ensinam as artes.

Hume, ao final do seu livro “Investigação sobre o Entendimento Humano”, propõe duas perguntas -somente duas-, que, se feitas, produziriam uma assepsia geral do conhecimento. De forma semelhante, e inspirado pela sabedoria dos moluscos e suas conchas, quero propor duas perguntas sobre tudo o que se ensina nas escolas. Primeira: isso que estou ensinando é uma ferramenta? Tem um uso prático? Aumenta o poder do aluno sobre o mundo que o cerca? De que forma ele pode usar isso que estou ensinando como ferramenta para construir a sua concha, a sua “casa”?

Segunda: isso que estou ensinando contribui para que o meu aluno se torne mais sensível à beleza? Educa a sua sensibilidade? Aumenta suas possibilidades de alegria e de espanto?

Concluo com as palavras de Hume: se a resposta for negativa, então “que seja lançado ao fogo”, porque nada tem a ver com a sabedoria da vida. Não passa de tolice e perda de tempo…

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8 Responses to “Sobre Moluscos, Conchas e Belezas”


  1. 1 Steve Kaufmann 10 janeiro, 2008 às 6:05

    Disculpeme de mi Portugues muito limitado. Eu acabo de comprar audiolivros de Rubem Alves para amejorar mi nivel de Portugues. Nao entendo todo entao buscava testo y he encontrado isto sitio. Muito obrigado. He importado o testo en el sistema LingQ(www.lingq.com) para estudar.Eu he fallado de isto sitio en mi blog. The Linguist on Language (www.thelinguist.blogs.com).

    Outra vez, muito obrigado por la ajuda.

  2. 2 Adriel 10 janeiro, 2008 às 10:31

    Hi Steve, você está muito bem acompanhado com Rubem Alves, bons estudos e boa sorte =)

  3. 3 Anônimo 28 maio, 2008 às 19:24

    holo are ski is

  4. 4 DIVINA EVANGELISTA 30 agosto, 2008 às 17:44

    TODOS OS EDUCADORES,PRECISAM LER E REFLETIR SOBRE O QUE ESCREVE RUBEM ALVES,TALVEZ ASSIM TIVESSIMOS UM EDUCAÇÃO PARA O CRESCIMENTO,INTELECTUAL E HUMANO DE VERDADE.

  5. 5 Flávio Lapa Claro 10 novembro, 2008 às 23:04

    Não sou educador…Ainda assim, Rubem Alves mudou minha vida.

  6. 6 *Bia* 2 dezembro, 2008 às 16:48

    Sr. Flávio, não concordo que o sr. não seja educador; se lê, filosofa e incorpora pra vida, o tal do RUBEM ALVES, então com toda certeza o Sr. É SIM, EDUCADOR.
    A palavra ‘EDUCAR’, vem do latim e quer dizer “eduzir”, isto é, “conduzir para fora” (ex-ducere, e-ducere).
    Eduzir o quê?????? Eduzir das profundezas da natureza humana algo que nela esteja contido e se ache ainda em estado latente ou dormente; despertar na alma do educando (não necessariamente um ‘aluno’ na escola) elementos positivos e bons e entregar a esses elementos o GOVERNO DA VIDA. Sr. Flávio, educador é quem ajuda o outro a eduzir, informações que lhe foram passadas, ou simplesmente acordá-las de dentro de nós!!!!

    Beijo grande

    • 7 Samuel Torres Bueno 22 fevereiro, 2010 às 19:25

      Caríssimo, Rubem Alves, espero que se essa meu singelo comentário seja útil. “Ninguém segue conselho, né?”. Não puxar o seu saco, muito pelo contrário, um elogio é sempre bem-vindo. Mas é que você me influencia “literariamente” de forma absolutamente positiva. A filosofia tem sido uma companheira constante na minha vida, sinto-me cada vez mais emergido em Nietzsche, Socrátes, Platão, Aristotéles, Freud, Bachelard, Rousseau, Marx, Monstequieu, Guimarães Rosa: “a coisa está na travessia”
      Sou um sonhador mesmo, um mescla de Dom Quixote, Riobaldo e Sancho Pança. Sou levado pelas águas da reflexão. Sou movido pela força dos pensamentos. O texto a seguir é uma meditação filosófica de minha autoria:
      Admirar a essência
      Samuel Torres Bueno

      Filosofia. Phylos Sofos. Amor à sabedoria, na tradução do grego. Mas o que seria a filosofia? O que é amar a sabedoria? Quais são as utilidades dessa ciência social? O que faz um filósofo? O que é filosofar?

      Bom, a filosofia não é um só uma palavra no dicionário. Ela possui toda uma história, possui diferentes vertentes, desde da Grécia Antiga até os atuais dias. Passaram-se os milênios, passaram-se as revoluções, passaram-se as mutações da sociedade, e a filosofia cumpriu seu papel no teatro da psique humana . Nesse teatro, as cortinas se revestem das mais variadas cores e texturas. E a peça encenada nesse teatro jamais será um monólogo.

      Cada vertente filosófica, cada linhagem de filósofos contribuíram para o enobrecimento da razão de ser humano, seja no nicho natural ou cultural. Mas o que seria a razão de ser humano? Será que somos fadados a não saber as repostas das nossas velhas perguntas? Será que os sentidos nos enganam? A razão é realmente segura? O que é cultura? O que é natureza?

      Como podemos observar, o ofício do filósofo é ser inquieto. Portanto, filosofar é questionar. Não se dar por vencido perante aparentes paradigmas. Tentar cada vez mais saciar sua fome de conhecimento. Enveredar nos grandes sertões, mesmo que eles sejam misteriosos e inóspitos. Às vezes, a filosofia é tida como subversiva. Sócrates, Darwin e Marx foram taxados de subversivos, por corromperem a sociedade com “pensamentos demais”…

      O amante da sabedoria não se importa em mergulhar em dúvidas. A inquietude, a persistência, a continuidade são a razão de ser filósofo. O francês René Descartes, o primeiro filósofo da Modernidade, descreveu essa situação nessa conhecida citação: “penso, logo existo”.

      É de extrema importância salientar o dinamismo da filosofia. Essa ciência foi fundamental durante as duas das maiores revoluções no campo intelectual e cultural da humanidade: o Renascimento e o Iluminismo.

      O renascimento foi literalmente um “nascer de novo” da esplêndida tradição filosófica grega. Artistas como Leonardo Da Vinci e Michelangelo foram autênticos renascentistas. O famoso desenho “O Homem Vitruviano ( o homem repleto de virtudes), do próprio Da Vinci, é o símbolo desse movimento. No Renascimento, também, houve a valorização da inteligência humana. As idéias incríveis dos sábios helenísticos, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles começaram a moldar a sociedade artística e cultural, principalmente na Itália, em cidades como Florença, Veneza, Verona e Milão.

      Pela primeira vez, o homem foi posto com condições de se tornar plenamente humano, usufruindo de toda a sua cultura. Antes do Renascimento, durante a Idade Média, o homem era considerado apenas um mero fantoche do destino, sem poder algum para mudar isso, até porque o feudalismo não o permitia.

      O Renascimento pode ser considerado uma semente para a Iluminismo. O Iluminismo seria literalmente uma “iluminação intelectual” do ser humano. Esse desejo fica evidente na publicação da Enciclopédia. Voltaire, Rousseau e Monstequieu retomaram o conceito de organização do Estado nas obras de Platão e Aristóteles. Os iluministas acreditavam que a melhor forma de se organizar um Estado seria descentralizar o poder, dividindo-o nos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, ou seja, cada poder é responsável por uma função específica na sociedade.

      A filosofia não é uma ciência pronta e acabada, ela sempre está sendo construída. Por causa disso que ela é uma ciência humana, não-exata. Isso é evidente, porque podemos fazer uma analogia entre a história da filosofia, a história geral e a queda das peças de um dominó. É muito comum encontramos dois projetos filosóficos com traços semelhantes. É interessantíssima essa relação. Todos estão certos e todos estão errados. Todos usaram de sua razão, e isso é o primeiro passo para se filosofar, por isso todos estão certos. Mas errar é uma coisa humana. Filosofia também é.

      Mas qual o objetivo final da filosofia? Digamos que a filosofia busca a verdade de quem somos, porque somos, de onde veio o mundo e tantas outras perguntas existenciais. Resumindo, a filosofia busca a verdade. Mas o que é a verdade?

      Há verdades que são tidas como absolutas numa época e, que posteriormente, essas supostas verdades não são aceitas mais com tanto fervor. Na Idade Média, se acreditava que monstros gigantescos habitavam os mares. Hoje, nenhum cientista que se preze acredita nisso.

      No caso da Idade Média, se acreditava na existência de monstros marinhos enormes na falta de uma explicação racional, científica. Para explicar os perigos de se navegar em alto-mar, se criou o mito de monstros, se recorreu à imaginação, ou seja, se criou uma verdade natural. Mentira para nós, que não vivemos no período medieval.

      Mas também há as verdades culturais forjadas pelo homem que visam um único intuito: manipular as massas. Foi justamente essa situação que aconteceu na União Soviética de Stálin, ma Alemanha de Hitler, na Cuba de Fidel Castro e o que está acontecendo na Venezuela de Hugo Chaves.

      Se gosto de Mozart, admito que outras pessoas gostem de Beethoven, que outras pessoas gostem de Bach, e também admito que outras pessoas não gostem de música clássica, e de sim, de música pop. Admito também que outras pessoas nem gostem de música.

      As palavras são minhas e as verdades são tuas. As palavras são desse cronista e as verdades são de quem lê, de quem decifra as palavras, de quem converte as palavras em movimento. O movimento das palavras decifradas é a força-motriz da arte, mas principalmente, da literatura.

      Assim é a vida. Assim são as diferenças culturais. O homem é criado a partir do meio. O viés formador do conjunto de idéias natas (ideologia) é a própria natureza (idéias inatas). A cultura é, portanto, o que “flui, o imutável” e a natureza sempre existiu, a natureza é a forma e a fôrma de todas as coisas. E esses pólos da contingência filosófica não foram iguais em todas as épocas e não são iguais para todos os homens. A natureza oferece o caminho, e a cultura oferece o modo de se caminhar.

      Sócrates, o primeiro filósofo cultural da História, o primeiro filósofo a se preocupar com os homens ou o conjunto de homens (sociedade). Sócrates se indagava não com os fenômenos físicos, exteriores e visíveis como os seus antecessores (os pré-socráticos), mas sim com os fenômenos socais, interiores e muitas vezes invisíveis que acontecem no ser humano.

      Esse extraordinário conhecedor do homem tocou num ponto que continua atualíssimo: o auto-conhecimento. Conhecer aquilo que lhe concerne. Inferir sobre o seu conjunto de idéias. Mergulhar nas águas da reflexão. A citação “Conhece-te a ti mesmo” foi proferida pelo próprio Sócrates, que foi idealista. Realista é quem se preocupa em demasia com os resultados e com a praticidade. Idealista é quem uma mistura de Dom Quixote com Sancho Pança. Idealista é aquele que cria, é aquele que deita e rola no mundo das idéias.

      Sócrates foi, sem a menor sombra de dúvida, um sábio. O sábio não é apenas um colecionador de conhecimentos. Um sábio, é antes de tudo, um humilde. Não fica no trono da arrogância e nem na rua da amargura. Um sábio é alguém que encontra na candura, segurança. O sábio não faz alarde. Pelo contrário, o sábio é aquele que não se guia pelo excesso, pela prepotência, mas, sim, pela essência.

      Sócrates defendia a tese de que todos os homens partilham da mesma essência, ou da mesma razão, portanto, todos os homens eram capazes de exercer plenamente a condição humana: criar, questionar e experimentar. E ele sabia que o conhecimento é algo novo a cada dia, a sabedoria é fruto de anos a fio cultivando a essência. Uma citação do próprio é “Só sei que nada sei”. Essa frase, à primeira vista, pode parecer irracional, sem sentido algum. Entretanto, é justamente o contrário.

      Como já se percebeu, filosofar não uma casualidade, uma coisa esporádica, descartável. Filosofar é a nobreza de refletir e a humildade de não julgar o desconhecido só por uma ou outra informação vaga. Filosofar é usufruir da própria razão sem atropelar as razões dos outros. Filosofar é reconhecer que somos apenas poeiras de estrelas num universo com bilhões e bilhões de estrelas, e mesmo assim, sabermos que o nosso valor humano é inestimável. Filosofar não é responder todas as perguntas. Filosofar é entender porque as perguntas foram feitas. O ato de filosofar é uma travessia fantástica. Filosofar é a capacidade de nos admirarmos com a essência.

  7. 8 camila sodoski 15 setembro, 2011 às 1:16

    gostei, mais acrescente o tempo de vida estimado de um molusco!
    bjs, continue com seu blog!


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