Carta ao Luigi

A Síndrome de Werdnig-Hoffman é uma doença genética raríssima, sem cura, mortal, também conhecida como atrofia muscular espinhal. As crianças que são vítimas dessa síndrome raramente atingem um ano de idade.

Eu conheço um menininho que é vítima dessa doença. Tem quatro anos e meio e vive permanentemente na cama, cheio de tubos e fios que cuidam que suas funções vitais sejam mantidas. Seu quarto é uma UTI. Ele é cuidado 24 horas por dia por uma equipe de enfermeiros e parentes. Sua diversão é ver televisão, deitado na sua cama. Seu herói favorito é o Tarzã.

Seus pais e avós resolveram escrever um livrinho contando a vida do Luigi e me pediram que escrevesse a apresentação. Foi isso que escrevi:

Meu querido Luigi, menininho valente que gosta de viver!

Seu pai e sua mãe me contaram que o Tarzã é o herói de que você mais gosta.

Quando eu era menino, eu também gostava do Tarzã. Ele era um homem forte, diferente de todos os outros, morava na selva, no meio das árvores e dos bichos. O que me dava mais inveja no Tarzã era quando ele, lá num galho de uma árvore muito alta, se agarrava num cipó e balançava para outra árvore!

Mais do que isso, ele entendia a língua dos bichos. Quando ele estava em perigo, dava um grito terrível que todos os bichos ouviam. E eles, os bichos, elefantes, leões, macacos, vinham correndo para salvá-lo. Eu gostava de ver os filmes do Tarzã e ver as revistas que contavam as suas aventuras.

Pois agora esse livrinho vai contar a sua estória. Nessa estória, o herói é você. Todas as pessoas que o lerem vão ficar sabendo das suas aventuras no meio dos perigos. Porque você vive no meio de perigos! E o mais importante: você não tem medo! Você não foge! Você enfrenta os perigos, briga e vence feito o Tarzã. Muitas pessoas, ao saber das suas aventuras, das suas brigas com os perigos, vão dizer: “O Luigi é o meu herói favorito!”.

O Tarzã vivia na floresta de árvores e tinha os animais como seus amigos. Você, diferentemente do Tarzã, vive no meio de outros perigos e os seus amigos nas brigas não são bichos, mas máquinas amigas que ajudam você a vencer as batalhas para continuar a viver.

Sei que você gosta muito de viver. Sabe por quê? Porque você ri. E quem ri tem alegria! Você é um menininho alegre, a despeito dos perigos. E, quando você ri, todo mundo ao seu redor ri também. O seu sorriso espalha alegria por aqueles que estão perto de você.

E agora eu quero lhe contar um segredo… Não sei se você vai entender, mas os grandes entenderão. A vida da gente não se mede pela quantidade de anos que se vive. A vida da gente se mede pela quantidade de alegria que se distribui. Todas as vezes que você enfrenta um perigo, briga e vence, é uma alegria! Todo mundo fica feliz!

Agora eu lhe desejo bons sonhos… Sonhos com o Tarzã, elefantes, macacos e leões! Mas você não terá medo porque eles são amigos. Sonhos de que você está lutando contra inimigos terríveis sem um pinguinho de medo! E, ao fim dos sonhos, depois da sua vitória, todas as pessoas que você ama irão rir de felicidade.

Só de pensar em você eu estou sorrindo.

Um beijo do vô torto,

Rubem Alves
Rubem Alves (postado por tina)

O flautista

Fortaleza. Eu ia fazer uma fala. Aí me disseram que antes haveria um pequeno concerto de uma orquestra de flautas de crianças pobres: sorriso no rosto, camiseta abóbora, flautinhas na mão. O regente era um mocinho magro. Ao final, o Marcelo -esse era o seu nome- me convidou a visitar a orquestrinha na cidade de Aquiraz, bairro Tapera, a uma hora de Fortaleza.

O concerto seria numa chácara, à noite. Mangueiras enormes, céu estrelado. Tocaram a sua alegria. Aí o Marcelo se juntou conosco. Pedimos que contasse sua história.

Família muito pobre. Pai bravo e batedor. Comiam os peixes que tarrafeavam num rio. E era preciso trabalhar para ajudar. Marcelo trabalhava numa padaria. Ganhava R$ 10 por mês. E ainda tarrafeava, depois de terminado o trabalho na padaria.

O seu grande sonho era ser músico, baterista. Pois um dia correu a notícia de que iriam formar uma banda. Quem quisesse que se candidatasse. O Marcelo se candidatou. Mas o homem que fez a apresentação do projeto nada falou sobre baterias. Ao invés disso tocou uma flautinha. O Marcelo se esqueceu da bateria e se apaixonou pela flauta.

O pai disse um “não” grosso e definitivo quando soube das intenções do filho. “Flauta é coisa de vagabundo. Filho meu não toca flauta…” Marcelo soube então que seu namoro com a flauta teria de ser como os namoros antigos, escondido.

A inscrição pra valer acabava às cinco da tarde. Marcelo, nessa hora, estava na padaria. Só pôde sair muito mais tarde, de bicicleta. No caminho, por aflição, caiu da bicicleta. Os peixes se espalharam, e ele ficou todo escalavrado.

E foi assim que chegou ao lugar da inscrição com duas horas de atraso. Mas o homem da inscrição ficou com dó dele e o inscreveu. Ele tinha 11 anos. Acontecia que a flauta custava R$ 10, o salário de todo um mês. Precisava ajuntar dinheiro. Passou a caminhar olhando para o chão, em busca de moedas perdidas. Por um ano juntou moedas de um centavo. Juntou os R$ 10. Comprou a flauta de plástico. Como não podia estudar em casa, pela braveza do pai, passou a estudar no alto de um cajueiro, de noite, longe da casa. No cajueiro guardava a flauta. Mas, num dia de chuva, ficou com medo de que a flauta se estragasse com a água. Escondeu-a em casa. Ao final do dia, voltando do trabalho, o pai o esperava.

Havia encontrado a flauta. O pai acendeu uma fogueira e a queimou, aplicando-lhe a seguir uma surra. Mas ele não desistiu.

Mais um ano juntando centavos até comprar nova flauta. Aí ele arranjou uma aluna. E ganhava R$ 10 por mês! Uma fortuna. Outra aluna, e mais outra. Nove alunas! R$ 90. O pai passou a gostar de flauta.

Foi então que o Marcelo teve a idéia de ensinar flauta para as crianças sem nada ganhar. E assim surgiu a orquestra de flautas. Naquela noite, debaixo da mangueira, ele tinha 18 anos. “Eu tenho um sonho”, ele disse. “Gostaria de ter uma flauta de verdade, transversal. Mas ela custa muito caro. Vai levar muito tempo para ajuntar o dinheiro…”

Aí uma professora que estava na roda abriu-se num sorriso e disse: “Marcelo, eu tenho uma flauta guardada numa caixa de veludo. Flauta que ninguém toca… A flauta é sua!”

Isso aconteceu faz tempo. O Marcelo entrou para a universidade, tornou-se flautista e regente. E continua ensinando música para as crianças. E não sei por que, o fato é que me elegeu seu padrinho…
Rubem Alves

Eu e o Amyr Klink

Hoje estou especialmente contente. Ontem fiquei conhecendo o Amyr Klink, cuja coragem de navegador provoca a minha admiração. Mas não foi isso que me alegrou. Fiquei alegre porque ele, sem saber, entrou em um livrinho que escrevi cujo objetivo era fazer as crianças pensarem. A idéia do livrinho estava me coçando a cabeça fazia alguns anos. Foi assim que aconteceu.

Perguntei-me: Por que é que as crianças têm dificuldade em aprender as coisas que lhes são ensinadas nas escolas, seguindo os programas oficiais? Brunno Bettelheim, já velho, deu a resposta: “Na escola, os professores tentavam me ensinar as coisas que eles queriam ensinar, do jeito como eles queriam ensinar, mas que eu não queria aprender”. Para aprender há de querer aprender.

Aristóteles inicia o seu “Metafísica” afirmando: “Todos os homens têm naturalmente o desejo de aprender”. Ele estava errado. Vou corrigi-lo: “Todos os homens, ENQUANTO crianças, têm naturalmente o desejo de aprender…”

As crianças são naturalmente curiosas. Querem aprender. Então, por que não aprendem? A Maria Alice, psicopedagoga por vocação, me contou algo que uma menininha lhe disse: “O mundo é tão interessante. Há tanta coisa que eu gostaria de aprender. Mas não tenho tempo. Tenho muitas lições de casa para fazer…”

O que é que as crianças querem aprender? Ou, mais precisamente, o que é que o corpo deseja aprender? Mas, antes dessa pergunta, vem uma outra: “Por que é que o corpo deseja aprender?” Ele deseja aprender para se virar no mundo. Ele quer conhecer coisas que fazem o seu mundo e afetam a sua vida. Um indiozinho não teria o menor interesse em aprender a fazer iglus, mas tem o maior interesse em aprender o uso do arco e da flecha.

O programa de aprendizagem que desafia o corpo é o mundo que o circunda, que é o mundo em que ele vive, que é o mundo que lhe apresenta os desafios práticos da vida que ele está vivendo no presente.

Para entender isso, basta cortar uma cebola ao meio: ela é formada por uma série de anéis concêntricos. Bem no centro está o corpo. O seu primeiro desafio é o primeiro anel. O último anel não lhe provoca o menor interesse porque ele está muito longe da sua pele. Ele só se interessará pelo último anel quando chegar ao penúltimo.

Aí eu me perguntei: “Qual é o primeiro entorno da criança?” Preste atenção nessa palavra “entorno”. Ela significa aquilo que está “em torno”, o espaço que pode nos dar vida ou matar. O primeiro entorno da criança é a sua casa. Pensei então: “Não seria possível fazer um programa que tomasse a casa como seu objeto? Começar a conhecer o mundo a partir da casa!

É aqui que entra o Amyr Klink. Questionado por um repórter sobre a escola ideal para os seus filhos ele respondeu: “A escola que eu desejaria para os meus filhos é uma escola que há nas Ilhas Faroë, lugar onde viveram os vikings. Lá as crianças aprendem tudo o que devem aprender construindo uma casa…”

Escrevi então o livrinho “Vamos construir uma casa?”.

Lá, as crianças vão lidar com as ciências que entram na construção de uma casa, a astronomia, a geometria, a física das ferramentas, a física dos materiais, o fogo, a química da cozinha, a água, o lixo e até mesmo o cocô! Quem diria que o cocô pode ser material pedagógico. Sobre isso eu escreverei depois.
Rubem Alves (postado por tina)

A morte e o silêncio

Nos breves intervalos em que a chuva parava de cair e os raios de sol se infiltravam pelas nuvens, o arco-íris aparecia fazendo os homens se lembrar da promessa que Deus fizera depois do dilúvio: ele nunca mais permitiria que as águas destruíssem a vida. Mas parece que ele se esquecera. A chuva caia sem parar alagando campos, inundando cidades, derrubando casas, matando gente e bichos.

Ele era um menino de 14 anos, feliz, que gostava de viver. Filho único, morava em Floripa. Como todos os meninos e meninas, ele deveria ir à escola naquele dia, porque a chuva não estava tão forte assim. E andar na chuva é uma arte que dá alegria às crianças.

Chegou a hora do recreio, tempo livre para brincar. A chuva voltou a cair mais forte, com raios e trovões. Havia um lugar abrigado da chuva, uma marquise, construída fazia três semanas. Era uma cobertura de cimento, planejada por engenheiros que sabiam o que estavam fazendo. Sólida. Ele se abrigou sob a marquise para ver a chuva. Mas a marquise, ignorando ferro e cimento, caiu sobre ele, esmagando-o. Agora, no seu lugar, resta uma dor que nenhuma palavra pode conter.

A morte faz calar as palavras. São inúteis. Servem para nada. Somente os tolos tentam consolar. Eles não sabem que as palavras de consolo, brotadas das mais puras intenções, são ofensas à dor da pessoa golpeada pela morte. Porque elas, as palavras de consolo, são ditas no pressuposto de que elas têm poder para diminuir o vazio que a morte deixou. Como se a pessoa que a morte levou não fosse tão importante assim e algumas palavras pudessem diminuir a dor que sua morte deixou.

Mas não há palavra ou poema que possa com as únicas palavras que a morte deixa escritas: “Nunca mais”. Nada existe de mais definitivo e mais doloroso que esse “nunca mais…”

Bem fizeram os amigos de Jó que o visitaram com o intuito de consolá-lo na sua desgraça. O texto bíblico descreve o que aconteceu:

“Quando eles, de longe, o viram, eles não o reconheceram; e eles levantaram suas vozes e choraram. E eles se assentaram com ele no chão durante sete dias e sete noites, e nenhum deles lhe disse uma palavra sequer, porque eles viram que o seu sofrimento era muito grande” (Job 2.13 ).

Todos os amigos querem diminuir o sofrimento da mãe. Cercam-na com palavras que, pensam eles, trarão algum consolo. Mas que palavra ou poema poderá substituir o seu filho? E a chamam ao telefone para dizer-lhe suas palavras doces e cheias das intenções mais puras. Mas a pureza das intenções não garante a sua sabedoria. E aí, à dor da morte do filho, acrescenta-se uma a outra dor: a mãe é obrigada a ouvir os consoladores delicada e pacientemente, com sorrisos de agradecimento… Mas são tantos os consoladores e eles cansam tanto…

Gestos de consolo, lembro-me de um que me comoveu. Eu vivia em Nova York com a minha família. Aí o pai da minha esposa foi morto num acidente, no Brasil. Ao abrir a porta do apartamento, no chão estava um buquê de flores. Aquele que o trouxera se retirara em silêncio. Não tocara a campainha. Mas deixara um bilhete onde estava escrito: “Não quis perturbar a sua dor…
Rubem Alves (postado por tina)

O que é científico? (I)

Colega aposentado com todas as credenciais e titulações. Fazia tempo que a gente não se via. Entrou no meu escritório sem bater e sem se anunciar. E nem disse bom-dia. Foi direto ao assunto. “- Rubão, estou escrevendo um livro em que conto o que aprendi através da minha vida. Mas eles dizem que o que escrevo não serve. Não é científico. Rubão: o que é científico?” Havia um ar de indignação e perplexidade na sua pergunta. Uma sabedoria de vida tinha de ser calada: não era científica. As inquisições de hoje, não é mais a igreja que faz.

Não sou filósofo. Eles sabem disso e nem me convidam para seus simpósios eruditos. Se me convidassem eu não iria. Faltam-me as características essenciais. Nietzsche, bufão, fazendo caçoada, cita Stendhal sobre as características do filósofo: ” Para se ser um bom filósofo é preciso ser seco, claro e sem ilusões. Um banqueiro que fez fortuna tem parte do carater necessário para se fazer descobertas em filosofia, isto é, para ver com clareza dentro daquilo que é.”

Não sou filósofo porque não penso a partir de conceitos. Penso a partir de imagens. Meu pensamento se nutre do sensual. Preciso ver. Imagens são brinquedos dos sentidos. Com imagens eu construo estórias.

E foi assim que, no preciso momento em que meu colega formulou sua pergunta perplexa, chamadas por aquela pergunta augusta, apareceram na minha cabeça imagens que me contram uma estória:

“Era uma vez uma aldeia às margens de um rio, rio imenso cujo lado de lá não se via, as águas passavam sem parar, ora mansas, ora furiosas, rio que fascinava e dava medo, muitos haviam morrido em suas águas misterioras, e por medo e fascínio os aldeões haviam construido altares às suas margens, neles o fogo estava sempre aceso, e ao redor deles se ouviam as canções e os poemas que artistas haviam composto sob o encantamento do rio sem fim.

O rio era morada de muitos seres misteriosos. Alguns repentinamente saltavam de suas águas, para logo depois mergulhar e desaparecer. Outros, deles só se viam os dorsos que se mostravam na superfície das águas. E havia as sombras que podiam ser vistas deslizando das profundezas, sem nunca subir à superfície. Contava-se, nas conversas à roda do fogo, que havia monstros, dragões, sereias, e iaras naquelas águas, sendo que alguns suspeitavam mesmo que o rio fosse morada de deuses. E todos se perguntavam sobre os outros seres, nunca vistos, de número indefinido, de formas impensadas, de movimentos desconhecidos, que morariam nas profundezas escuras do rio.

Mas tudo eram suposições. Os moradores da aldeiam viam de longe e suspeitavam – mas nunca haviam conseguido capturar uma única criatura das que habitavam o rio: todas as suas magias, encantações, filosofias e religiões haviam sido inúteis: haviam produzido muitos livros mas não haviam conseguido capturar nenhuma das criaturas do rio.

Assim foi, por gerações sem conta. Até que um dos aldeões pensou um objeto jamais pensado. ( O pensamento é uma coisa existindo na imaginação antes dela se tornar real. A mente é útero. A imaginação a fecunda. Forma-se um feto: pensamento. Aí ele nasce…). Ele imaginou um objeto para pegar as criaturas do rio. Pensou e fez. Objeto estranho: uma porção de buracos amarrados por barbantes. Os buracos eram para deixar passar o que não se desejava pegar: a água. Os barbantes eram necessários para se pegar o que se deseja pegar: os peixes. Ele teceu uma rede.

Todos se riram dele quando ele caminhou na direção do rio com a rede que tecera. Riram-se dos buracos dela. Ele nem ligou. Armou a rede como pode e foi dormir. No dia seguinte, ao puxar a rede, viu que nela se encontrava, presa, enroscada, uma criatura do rio: um peixe dourado.

Foi aquele alvoroço. Uns ficaram com raiva. Tinham estado tentando pegar as criaturas do rio com fórmulas sagradas, sem sucesso. Disseram que a rede era objeto de feitiçaria. Quando o homem lhes mostrou o peixe dourado que sua rede apanhara eles fecharam os olhos e o ameaçaram com a fogueira.

Outros ficaram alegres e trataram de aprender a arte de fazer redes. Os tipos mais variados de redes foram inventados. Redondas, compridas, de malhas grandes, de malhas pequenas, umas para serem lançadas, outras para ficarem à espera, outras para serem arrastadas. Cada rede pegava um tipo diferente de peixe.

Os pescadores-fabricantes de redes ficaram muito importantes. Porque os peixes que eles pescavam tinham poderes maravilhosos para diminuir o sofrimento e aumentar o prazer. Havia peixes que se prestavam para ser comidos, para curar doenças, para tirar a dor, para fazer voar, para fertilizar os campos e até mesmo para matar. Sua arte de pescar lhes deu grande poder e prestígio e eles passaram a ser muito respeitados e invejados.

Os pescadores-fabricantes de redes se organizaram numa confraria. Para se pertencer à confraria era necessário que o postulante soubesse tecer redes e que apresentasse, como prova de sua competência, um peixe pescado com as redes que ele mesmo tecera.

Mas uma coisa estranha aconteceu. De tanto tecer redes, pescar peixes e falar sobre redes e peixes, os membros da confraria acabaram por esquecer a linguagem que os habitantes da aldeia haviam falado sempre e ainda falavam. Puseram, no seu lugar, uma linguagem apropriada às suas redes e os seus peixes, e que tinha de ser falada por todos os seus membros, sob pena de expulsão.

A nova linguagem recebeu o nome de ictiolalês ( do grego “ichthys” = peixe + “lalia”= fala ). Mas, como bem disse Wittgenstein, alguns séculos depois ” os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”. O meu mundo é aquilo sobre o que posso falar. A linguagem estabelece uma ontologia. Os membros da confraria, por força dos seus hábitos de linguagem, passaram a pensar que somente era real aquilo sobre que eles sabiam falar, isto é, aquilo que era pescado com redes e falado em ictiolalês. Qualquer coisa que não fosse peixe, que não fosse apanhado com suas redes, que não pudesse ser falado em ictiolalês, eles recusavam e diziam: “Não é real”.

Quando as pessoas lhes falavam de nuvens eles diziam: ” Com que rede esse peixe foi pescado?” A pessoa respondia: “Não foi pescado, não é peixe.” Eles punham logo fim à conversa: “Não é real”. O mesmo acontecia se as pessoas lhes falavam de cores, cheiros, sentimentos, música, poesia, amor, felicidade. Essas coisas, não há redes de barbante que as peguem. A fala era rejeitada com o julgamento final: ” Se não foi pescado no rio com rede aprovada não é real.”

As redes usadas pelos membros da confraria eram boas? Muito boas.

Os peixes pescados pelos membros da confraria eram bons? Muito bons.

As redes usadas pelos membros da confraria se prestavam para pescar tudo o que existia no mundo? Não. Há muita coisa no mundo, muita coisa mesmo, que as redes dos membros da confraria não conseguem pegar. São criaturas mais leves, que exigem redes de outro tipo, mais sutis, mais delicadas. E, no entanto, são absolutamente reais. Só que não nadam no rio.

Meu colega aposentado com todas as credenciais e titulações: mostrou para os colegas um sabiá que ele mesmo criara. Fez o sabiá cantar para eles e eles disseram: “Não foi pego com as redes regulamentares; não é real; não sabemos o que é um sabiá; não sabemos o que é o canto de um sabiá…”

Sua pergunta está respondida, meu amigo: o que é científico?

Resposta: é aquilo que caiu nas redes reconhecidas pela confraria dos cientistas. Cientistas são aqueles que pescam no grande rio…

Mas há também os céus e as matas que se enchem de cantos de sabiás…Lá as redes dos cientistas ficam sempre vazias.
Rubem Alves (postado por tina)

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